Cantiga de Comer à mão
“É preciso não comer tanto”
- dizia o pai solenemente
quem abusa morre de espanto
e, no entanto, a gente consente
Consente que os outros comam
o miolo da nossa esperança
consente que os outros encham
os dois pratos da balança
Consente que os outros façam
gestos duros de acusação
consente que os outros digam
tudo aquilo que não são
Consente que os outros deixem
no nosso solo edificados
negros barcos de silêncio
cheios de corpos mutilados
Consente que os outros façam
a dura lei que nos imita
consente que os outros partam
com a carga de quem fica
“É preciso não comer tanto”
- dizia o pai solenemente
quem não come perde o canto
mas sempre há quem se aguente
Já mais tarde o pai morreu
por quase nada ter comido,
teve a morte que mereceu
e foi muito aplaudido
José Jorge Letria


